EWE

Ewe- suas funções dentro do sistema mágico do mundo espiritual de  Ifa  -Voduns e Orisas


A descrição das folhas são classificados em grupos e elementos naturais a que pertencem e utilizadas de acordo com a necessidade presente em fundamentos e atos de magias nos cultos de Ifá-Vodun-Orisá.

Na classificação botânica usa-se diferentes  métodos para classificar um folha ou tipo de uma planta. No sistema Yoruba esta classificação começa na observação de seu cheiro, cor, e sua textura sendo analisada na reação e  sensação provocada por seu contato. Veremos então esta classificação em Yoruba por espécies de cada folha ou planta;

Ahón ekùn;-(língua de leopardo), é o nome dado a folhas cuja superfície se mostra áspera, apesar de sua forma ser diferente.De acordo com a classificação cientifica, elas são as; Hibiscua Surattensis,Malvaceae, a Hibiscus Asper,Malvaceae (o cânhamo –brasileiro);a Tetracera sp.,Dilleniaceae; e a Acanthus Montanus,Acanthaceae ( o falso cardo)

Amùjé-( estanca-sangue), chamada amùje nlá,( estanca sangue grande) no caso da Harungana Madagascariensis,Rhizophoraceae, e Amùjè wéwé, (estanca sangue pequena), no caso da Byrsocarpus Coccineus e da Cnestis Longiflora,ambas Connaraceae, são plantas com propriedaes coagulantes.

Bòbó àwòdì-é o nome dado tanto à Solanum Dasyphyllum, Solanaceae, quanto à Capparis Thonningii,Capparaceae, devido à semelhança da forma  de seus frutos,que se parecem  com a berinjela.

Bùjé;´é o nome dado as plantas que são usadas nas preparações de tatuagens e de tinturas preta para os cabelos, classificando-se como Morelia Senegalensis,Rubiaceae;Rothamania Whiffieldii etc..

Dágunró; (-para-guerra),é o nome dado as plantas espinhosas de três fammilias diferentes;

1-dágunró gogoro; -alta- para  a Acanthospermum hispidun,Compositae (carrapicho-rasteiro)

2-dágunró Kékeré-pequena- para a  Alternanthera Pungens,Amaranthaceae(erva de pinto)

3-dágunró nlá-grande- para a Tribulus Terrestris,Zygophyllaceae.


Èékánná-;(Garra) é o nome dado as plantas que possuem espinhos, como;

1-èékánná adìye, (garra de galinha), para a  Portulaca Quadrifida,Portulacaceae

2-èékánná ekùn,(garra de leopardo), para a Argemone Mexicana,Papaveraceae(o cardo santo)

3-èékanná magbo, para  a Smilax Kraussiana, Smilacaceae

4-éékannásè adìye, tanto para a Strychnos Spinosa, Loganiaceae quanto para a Ziziphus Mucronata, Rhamnaceae.

 

Èèmó; é um nome composto a partir do verbo mó, que quer dizer –grudar- e as plantas  assim disignadas possuem frutos aderentes,que grudam no pêlo dos animais e nas roupas; são elas Desmodium Canum, Leguminosae Papilionoideae; a Cenchrus Biflorus,Gramineae; a Setaria Verticillata, Gramineae (capim de cabra); a Pupalia Lappacea,Amaranthaceae; e a Pouzolzia Guineensis,Urticaceae.


Èsisì;é a denominação dada as plantas cujas folhas e frutos são cobertos de pêlos urticantes, como a Cnestis corniculata,Connaraceae; a Cnestis Ferruginea,Connaraceae; a Mucuna Pruriens,Leguminosae  Papilionoideae (pó de mico)  a Tragia Benthamii, Euphorbiaceae (urtiga branca); a Urera manii,Urticaceae; e a Sida Urens,Malvaceae (guaxima).O mesmo nome é dado também à Laportea Aestuans (cansação) e à Laportea Ovalifolia, ambas Urticaceae,plantas não urticantes mas cujas folhas têm forma  semelhante à de folhas de urtiga.

Ewúro;-folha amarga- é o nome das folhas de sabor  amargo pertencentes a várias famílias, como a Vernonia Amygdalina (alumã), a Vernonia Adoensis, a vernonia Colorata e a Struchium Sparganophora, todas Compositae; a Solanum Wrightii e a Solanum Erianthum ( fruta de lobo), ambas Solaneae, e a Ludwigia Octovalvis, Onagraceae (cruz de malta).

Ìlasa;é  o nome dado a plantas que possuem em comum  características mucilaginosas, como a Abelmoschus Esculentus,Malvaceae (quiabo), por seus frutos; a Urena Lobata, Malvaceae (guaxima-roxa), por suas sementes; e a Triumfetta Rhomboidea,Tiliaceae(carrapicho da calçada),por suas folhas.

Oróbéja; (veneno-pega-peixe), é como são conhecidas a Tephrosia Vogelli, Leguminosae Papilionoideae, ae a Diospyros Phisocalycina, Ebenaceae,plantas cujas folhas e vagens são usadas para deixar lentos os peixes e rios e lagos

Òdúndún; é o nome dado à Kalanchoe Crenata, Crassulaceae (folha da costa) e à Emilia Cocciniea, compositae(pincel), sendo esta ultima também chamada de òdúndún etídòfé, òdúndún olókun e òdúndún odò. A àbamodá ou Bryophyllum Pinnatum,Crassulaceae (milagre de São Joaqim) é também conhecida como erú òdúndún, ou escravo de odundun.

Patonmó;- estas “mantem-as –coxas fechadas”, é o nome dado a plantas cujos folíolos se fecham ao menor contacto.É aplicado à Mimosa Pudica,Leguminosae Mimosoideae (dormideira); a Mimosa Pigra, Leguminosae Mimosoideae (unha de gato); e a Biophytum Petersianum, Oxalidaceae.

Saworo;- sininho-, é o nome dado à Trilepisium Madagascariense, Moraceae; às Cardiospermum Grandiflorum (ensacadinha) e Cardiospermum Halicacabum, Sapindaceae; e à  Crotalária sp., Luguminosae Papilionoideae, todas plantas com frutos cujas sementes ficam soltas na vagem e chocalham quando sacudidas.

Sendo assim apresentadas a natureza química e ativa de cada tipo de plantas,folhas,sementes, também se classificam por elementos naturais de força são quatro compartimentos estruturados a partir de uma concepção de categorias lógicas e ordenadas segundo a visão de mundo dos jêje - nagôs. Sendo os Òrìsàs as representações vivas das forças que regem a natureza, as folhas a eles atribuídas, no contexto litúrgico, associam-se, conseqüentemente, a esses elementos, estudando essas classificações, verificou que: "Os vegetais estão dispostos em quatro compartimentos-base diretamente relacionados aos quatro elementos;

ewé afééfé - folhas de ar ( vento);  

ewé inón- folhas do fogo,  

ewé omi, - folha de água;   

ewé igbó - folhas da terra

"Nestes quatro compartimentos-base, concentram-se o panteão jêje - nagô . Genericamente, vamos encontrar;

Esu e Sangô- participando do compartimento Fogo

Ogun, Osossi, Ossain e Obaluayê- ligados ao elemento Terra

Iemanjá, Osum, Obá, Nanã e Yewá-associadas as Águas

Oxalá e Oyá- ao Ar.

Todavia, ao particularizarmos veremos que alguns Òrìsàs como Logunede e Osumare, considerados "Meta-Meta", estarão vinculados a mais de um desses compartimentos.,como por exemplo folhas macho e fêmea em conjunto de folhas gun/ero

Esu está ligado com predominância ao elemento Fogo, porém, como "cada Òrìsà possui seu Esu, com o qual ele constitui uma unidade", este compartilhará do mesmo elemento ao qual o Òrìsà está associado. Assim, os Esus das Iabás estarão ligados também , ao elemento Água, os de Ogun e Osossi ao compartimento Terra, e assim ocorrendo com os demais Esus.

Ogun atua predominantemente com no compartimento Terra. Todavia, na qualidade Warin, encontramos um Ogun que habita nas águas , pois segundos os mitos ele vive no Rio com Osum; conseqüentemente, estará, também, ligado ao compartimento Água. Ogun Àlagbèdè Òrun, ( Ferreiro do céu), se liga, também, ao elemento Ar, juntamente com Orunmila-Ifá e  Osalá.

Osossi é ligado à Terra; mas, nas suas variáveis, encontramos Inlè que não realidade não é um Osossi e sim um  Rei caçador que tem Culto a parte pois Inle é Rei de Ilobu a  modalidade deste Òrìsà que, como Logunede, está associado tanto ao compartimento Água quanto ao Terra; entretanto, para maioria das outras qualidades de Osossi predominam o elemento Terra.

Obaluaye, sendo um Òrìsà da Terra ( Oba = Rei, Aye = Terra ), mas que se relaciona com a febre e o sol do meio-dia, está ligado, igualmente, os compartimentos Terra e Fogo. Em algumas ocasiões ele recebe o título de : "Baba Igbonan = Pai da quentura" . Título que é dado também a uma qualidade de Sangô Airá-Igbonan, considerado dono do fogo e cultuado numa fogueira.

Ossaim, por ser patrono dos vegetais, automaticamente, está ligado a todos os elementos da natureza; todavia, seu compartimento principal é o Terra, representado pelas florestas onde nasceu todos os vegetais.

Osumare é representado pelo arco-íris que se projeta nas águas em direção ao céu. Liga-se, simultaneamente, aos compartimentos água e ar. Pode ser irmão de Obaluaye, algumas vezes se relaciona, também , com o elemento Terra.

Nana, a Yaba que é representada pela chuva fertilizando a terra (lama), tem como compartimento base a Água, mas, também, a Terra.

Oiá, em um de seus diversos aspectos, é cultuada no rio Níger, na África, o que realça suas características de "deusa da fertilidade" ligada ao compartimento Água, bem como á responsável pelos coriscos, tempestades e ventanias, fato que a associa tanto ao elemento Ar quanto ao elemento Fogo. Sob a denominação de "Oya Igbale, Orisá patrono dos mortos e dos ancestrais", participa, também do elemento Terra.

Sango está associado, predominantemente, ao elemento Fogo, enquanto que Iroko, entidade fitomórfica cultuada em uma árvore, embora possua muita afinidade com o primeiro, está ligado ao elemento Terra.

Osum, Yemanjá e Oba são iabas ligadas, especificamente, ao elemento Água; porém, alguns de seus aspectos poderão ligá-las aos demais compartimentos base.

Osalá esta ligado, com predominância, ao compartimento Ar. Todavia, diz que "Osalá está associado à Água e ao Ár

Odudua está associado à Água e a Terra".  

Orisá Okó também é um Orixá funfun, é considerado o patrono da agricultura, possuindo estreita ligação com a Terra.

Os Jeje-nago classificam;

 Lado direito; sendo o masculino e positivo

Lado esquerdo;sendo  feminino negativo

Então veremos desta forma   o masculino é positivo e se posiciona do lado direito, enquanto o feminino é negativo e se posiciona do lado esquerdo. Neste contexto os compartimentos que contêm as ewé inón (folhas do fogo) e ewé afééfé (folhas do ar) estão associadas ao masculino, elementos fecundantes, enquanto que as ewé omi (folhas da água) e as ewé ilè (folhas da terra) se ligam ao feminino, elementos fecundáveis.

Ao determinar que as folhas são separadas por pares opostos:

 Gun;(de excitação) –folha ativante e de rápido efeito para magias e fundamentos

 Ero;(de calma), folhas que mantem um ritmo calmo trazendo paz e serenidade

Ewé apa otun; (folhas da direita) ou pertencentes ao masculino 

Ewé apa osi ;(folhas da esquerda),pertencentes ao feminino

 os Jeje-nago tomam como modelo um sistema da classificação baseada em posições binárias. Todavia, essa não é uma condição absoluta de regra  quando analisamos mais detalhadamente a utilização dos vegetais, pois percebemos que algumas folhas positivas se relacionam com o lado esquerdo ou feminino e vice-versa, daí encontrarmos folhas femininas usadas com fins positivos, e folhas masculinas consideradas negativas. Verger cita, por exemplo, que entre as folhas  conhecidas como folhas masculinas ( por seu trabalho maléfico,e as  tidas como antídotos.Entre estas últimas ele inclui o òdúndún (Kalanchoe crenata), que é uma folha feminina, porém positiva, o que nos faz crer que as diversas condições binárias não interagem de modo rígido entre si, pois, como vimos, uma folha masculina pode estar situada junto aos elementos da esquerda por ser considerada negativa.

No sistema de classificação dos vegetais, a condição para que uma folha seja masculina ou feminina é o seu formato, pois, na concepção Jeje-nago, a forma fálica ou alongada caracteriza o elemento masculino, em contrapartida, a forma uterina ou rredondada determina o elemento feminino. Essa convenção é adotada, tanto com relação as folhas, quanto aos jogos divinatórios que tiveram origem a partir do oráculo de Ifá, onde, dos dezesseis cawris usados, oito são de forma alongada e considerados masculinos, e os femininos são os oito restantes que possuem forma arredondada e com uma características de orelhas nas laterais,assim classificando e diferenciando um cawri Macho de um cawri Fêmea formando  um par de oposição básico no que se refere às espécies vegetais, e está diretamente relacionado ao jogo do Merindilogun onde podemos conversar através de suas mensagens  com nossos Orisas e demais entidades espitrituais.

As folhas consideradas masculinas estão associadas aos Aborós ( orisás masculinos), bem como as femininas pertencem às Yabas (orisás femininos); todavia, eventualmente encontraremos algumas folhas femininas associadas aos Aborós e algumas masculinas atribuídas às Yabas, o que parece refletir uma bipolaridade característica de alguns orisas.

Quando utilizamos nos rituais de iniciação ou nos trabalhos litúrgicos, os vegetais classificados como Ero tem a função de abrandar o transe, apaziguar o orisá ou acalmar o iniciado; contrariamente, os considerados Gún servem para facilitar a possessão e excitar o orisá.

Através desse misterioso e harmonioso movimento entre plantas,folhas e sementes é que conseguimos forçar ou aliviar os movimentos espirituais e mágicos pertencentes ao elemento vegetal em conjunto com os elementos mineral e animal, para que possamos adquirir os efeitos necessários , sempre de acordo com uso consciente destes elementos.

 

OBS- ESTA MATÉRIA NÃO É DE MINHA AUTORIA É FRUTO DE ESTUDOS E PESQUISAS , PORTANTO DEIXO MEUS AGRADECIMENTOS A TODOS OS QUE MUITO TRABALHARAM  PARA QUE PUDESSEMOS DESFRUTAR.

 

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COERÊNCIA DO SISTEMA; DIVINDADES E EWÉ Revendo a literatura sobre o pensamento Jêje-Nagô, primeiramente nos detivemos no pioneiro a se preocupar em construir um modelo que desse conta das categorias lógicas vigentes neste complexo cultural. Foi Bastide (1955) que, em resumo, detectou a existência de quatro compartimentos estruturados a partir do panteão dos òrìsá. A esses compartimentos, correspondentes aos quatro elementos – Água, Ar, Terra e Fogo – se relacionam e se dividem as 16 divindades, ainda hoje, cultuadas nestas comunidades religiosas. Segundo este autor a lógica do candomblé se define pelo princípio de ruptura ou do corte que separa os compartimentos, estando este princípio, porém aliado ao de participação expresso por Levy-Bhrul, o que dá ensejo a uma ordenação da visão de mundo. Existe também, conforme apontado por Bastide, o princípio de correspondências de Griaule, proporcionando um relacionamento por analogia entre o que está disposto em cada um dos compartimentos. Assim, o pensamento Jêje-Nagô está subordinada a um raciocínio indutivo por analogia (Bastide, 1955:491-503).
Afirmamos, portanto, de acordo com Lévi-Strauss (1970), que o sistema classificatório Jêje-Nagô se fundamenta sobre oposições binárias que são o exemplo mais simples que se pode conceber de um sistema. O processo classificatório, portanto, dá origem a taxionomias provenientes de dicotomias sucessivas.
Lépine (1982:54), analisando a proposta deste autor, conclui que “os compartimentos do universo não são apenas justapostos; eles se engendram e se encaixam num processo que vai de geral ao particular e vice-versa”.
Os dados obtidos em nosso trabalho permitem aceitar a divisão lógica de universo em quatro compartimentos, pois ao analisarmos o sistema de nominação dos vegetais encontramos respaldo para esta ordenação. Os vegetais estão dispostos em quatro compartimentos diretamente relacionados aos quatros elementos: as “ewé áféré” – “folhas de ar (vento); as “ewé inón”- “folhas de fogo”, as “ewé omi”- “folhas de água” e as ewé ilé “ou “ewé igbó”- “folhas da terra ou da floresta”. Concordamos com Lépine no que se refere ao relacionamento intra e intercompartimentos; não aceitamos, porém a adição de mais dois compartimentos – o da Cultura e o da Natureza – que, a nosso ver, constituem um dos pares de oposição binária complementar que viabilizam a ordenação do sistema de classificação como um todo.
Portanto, a lógica do sistema de classificação Jêje-Nagô possui estes quatro elementos-base (Água, Terra, Fogo e Ar) aos quais estariam relacionados todos os elementos do áiyé e do òrún, do mundo dos vivos, do mundo dos òrìsá e dos antepassados. O primeiro par de oposição binária complementar é constituído por esta diferenciação entre o mundo das relações sociais concretas e o mundo sobrenatural “o mundo paralelo ao mundo real que coexiste com todos os conteúdos deste (...) tudo o que existe no òrún tem sua ou suas representações no áiyé (Elbein dos Santos, 1977:54).
A mesma autora (1977:102) acrescenta que “(...) a existência se desenvolve simultaneamente em dois níveis, diferenciando a vida do àiyé do òrún. Esta concepção estende-se aos habitantes do òrún, diferenciando os òrìsá dos ancestrais. Pertencem a categorias diferentes – os òrìsá estão especialmente associados à estrutura da natureza, do cosmo; os ancestrais, à estrutura da sociedade”.
Desta forma, os òrìsá, que pertencem a um dos quatro elementos acima citados, imprimem nos indivíduos a sua marca, i.e., coloca-os em relação também a um desses quatro elementos, os egún agem no sentido de regularizar a disciplina moral de um grupo ou segmento (Elbein dos Santos, 1977:104); em outras palavras, os òrìsá conferem essência e padrões de comportamento; os egún padrões éticos e morais. Os primeiros, cultuados nos Terreiros Lésè òrìsá, e os segundos nos Lésè egún, objetos, portanto, de cultos diferenciados, porém complementares. “Se os pais e antepassados são os genitores humanos, os òrìsá são os genitores divinos; um indivíduo será “descendente” de um òrìsá que considerará seu “pai”- Bàba mi – ou sua “Mãe” – Iyá mi – de cuja matéria simbólica – água, terra, árvore, fogo, etc. – ele será um pedaço. Assim como nossos pais são nossos criadores e ancestrais concretos e reais, os òrìsá são nossos criadores simbólicos e espirituais, nossos ancestrais divinos” (Elbein dos Santos, 1977: 103).
Lépine (1982:16) afirma que “Cada um dos òrìsá está associado a elementos da natureza, fenômenos meteorológicos, determinada cor, dia da semana, animais, plantas, etc... Além disto, os filhos-de-santo são supostos de herdar e reproduzir o temperamento do seu santo de cabeça, podendo também haver, às vezes, certa influência do segundo òrìsá, de modo que os deuses fornecem modelos com os quais os fiéis se identificam. O panteão oferece, portanto, uma classificação dos estereótipos da personalidade, e os òrìsá são constantemente mencionados, na vida cotidiana, como categorias que permitem definir as pessoas, os tipos humanos”.
Basicamente os 16 òrìsá conhecidos nos Terreiros Ketu (Jêje-Nagô) estão associados a um dos outro elementos-compartimentos e conferem organização à existência nas comunidades, classificando e ordenando a vida material. “As cores atribuídas a cada òrìsá constituem um meio de classificação que torna explícito seu significado, sua particular esfera de ação e sua pertença” (Elbein dos Santos, 1977:100). O mundo vegetal também está dividido pelos òrìsá e, consequentemente, também está relacionado aos quatro elementos-base.
Elbein dos Santos (1977) ao tentar explicar o sistema nagô de classificação através do conceito de àsé, i.e., da força primordial que cada coisa contém, liga-o aos quatro elementos, relacionando-os ao sistema simbólico expresso pelas cores branco, vermelho e preto – os três “sangues”. Cabe salientar que cada um destes “sangues” reúne elementos vegetais, animais e minerais; por conseguinte os quatro elementos se encontram presentes em cada um deles .
Dentre os 16 òrìsá 14 possuem características que imediatamente os insere em um dos compartimentos mencionados. Por exemplo, Sàngo dentro do elemento Fogo; à Terra pertencem Obáluáiyè, Ògún, Òsósí, Irékè e Òsányìn; a Água, as áyábá, Nàna, Yémójá, Òsún, Éwa, Oba; o Ar, Òsàlá e Óyá. Os òrìsá Loginede e Òsùmàrè, divindades possuidores de características masculinas e femininas, i.e., que não pertencem nem à direita, nem à esquerda. “Ambas as categorias são igualmente importantes e suas funções tem valores equivalentes e complementares. Assim, por exemplo, um indivíduo está constituído de elementos da direita, herdados de seu pai, e de seus ancestrais masculinos, e de elementos de esquerda, herdados de sua mãe e de seus ancestrais femininos (...) o que é masculino é considerado como pertencendo à direita e o que é feminino como pertencendo à esquerda” (Elbein dos Santos, 1977:70).
Legunede e Òsùmàré recebem as “folhas” que são relacionadas a seus genitores míticos: o primeiro, filho de Òsósí e Òsún, “Pega as folhas tanto de seu pai quanto de sua mãe; com Òsùmàrè, “filho de Nàná e irmão de Óbálúaiyé” dá-se o mesmo. Desta forma, processa-se a volta ao sistema organizado pela utilização de espécies vegetais que reforçam este ou aquele aspecto, feminino e/ou masculino, de ambos. Fica restabelecida a ligação complementar Terra/Água. Assim é que podemos inferir que as “folhas” cumprem também o papel de reforçar o caráter essencial dos elementos, ou melhor, as “folhas” ao veicularem o seu àsé, ativam a potencialidade do elemento, ao qual o òrìsá a que pertence o indivíduo está ligado.
Por conseguinte, Macho/Fêmea formam um par de oposição básico no que se refere também às espécies vegetais e está diretamente relacionado ao òrìsá. Os vegetais pertencentes às áyábá (divindades femininas) são essencialmente femininos, enquanto que aqueles de Sàngo, Ògún, Òsósí, Obálúaiyè e Ìrékè são masculinos, o mesmo se processando em relação aos quatro elementos e à direita e à esquerda. Informante nosso ao se referir às “folhas”, denominou-as de “ewé apa òsì” e “ewé apa òtun”, “folhas do lado direito” e “folhas do lado esquerdo”, respectivamente. Acrescentou ainda que “por elas serem “apa òsì” e “apa òtun” são machos e fêmeas e é por isso que se deve casá-las direito. Tem “folhas” que são positivas, outras que são negativas, a gente tem que saber como juntá-las, fazer a combinação certa, para não dar complicação. É por isso que algumas delas não podem ficar juntas”.
Vê-se, então, que os quatro elementos-chave que norteiam o sistema de classificação encontram-se projetados no mundo vegetal, ordenando-o segundo a mesma lógica. Assim é que temos quatro compartimentos: “ewé áféré” (“folhas” do Ar-Vento); “ewé inón” (“folhas” do Fogo), “ewé omi (“folhas” da Água) e “ewé ilè” ou “ewé ígbó” (“folhas” da Terra e da Floresta). As duas primeiras foram categorias encontradas explicitamente nos textos cantados (kòrin ewé) e na denominação das espécies, enquanto que a categoria “ewé omi” apresentou-se implícita. A Quarta categoria – “ewé ilé ou igbó” – é consequência de uma projeção lógica.
Elbein dos Santos (1977:59) faz a associação dos elementos Água e Ar com Ò sàlá, òrìsá da criação, ligando à cor branca, sendo odùdúwà associada a Água e à Terra bem como ao negro, apesar de serem ambos òrìsá funfun, i.e., òrìsá originais, assim se processando uma relação de oposição complementar. Tal ligação, entretanto, se prende à questão dos mitos de criação. De acordo com Balandier (1976:20), no pensamento africano, de maneira geral, a sexualidade e as relações por ela supostos “a maneira pela qual elas se definem simbólica e praticamente, a natureza dos dinamismos sociais elementares, dos quais elas são o ponto de origem”, macho e fêmea ficam sendo a base lógica dos sistemas de classificação.
Da mesma forma, Sàngo ligado ao elemento Fogo (masculino) interage com o Ar através de Óyá (Ar-feminino). Cabe ressaltar que existe uma diferença entre o Ar de Òsàlá (òfurúfu – ar divino, branco”) (Elbein dos Santos, 1977:55), de caráter masculino e o Ar de Óyá feminino que indica movimento, vento, e complementar do Fogo de Sàngo. Assim é que o vermelho que simboliza Sàngo é por complementaridade de Óyá. Este vermelho está também ligado a inón (fogo) e as “ewé inón”, categoria que abrange todas as espécies vegetais pertencentes a sàngo são também utilizadas para Óyá.
A Água, pois, essencialmente feminina (esquerda) pertencem todas às áyábá, assim como as espécies vegetais que possuem frescor, umidade e/ou cujo habitat é dentro do elemento ou em suas proximidades, fazem parte, portanto, da categoria, “ewé omi”.
Òsàlà, também dito frio, criador e sereno, é seu elemento masculino complementar, sendo que várias das espécies que lhe são atribuídas pertencem aos òrìsá femininos. “O omi, a água, é a oferenda por excelência, que veicula e representa ao mesmo tempo a água-sêmem e a água-contida-sangue-branco-feminino; ela fertiliza, apazigua e torna propício; nenhuma oferenda ou invocação poderá ser efetuada sem água” (Elbein dos Santos, 1977:188). Os relacionamentos, portanto, são múltiplos, porém o que cabe ressaltar é a existência da relação básica Masculino/Feminino.
Azedinha (Ba-68), Caruru de Porco (Ba-65) e Viuvinha (Ba-119)
As espécies de número 1 e 3, Ìmu (Ba-68) e Viuvinha (Ba-119), respectivamente, pertencem a òrìsá femininas, pois ambas, além de possuírem capacidade de retenção de água, tem habitat em locais sombrios e úmidos. Tètè (Ba-65) é de Ògun, òrìsá masculino, possuindo pequenos espinhos e forma de lança.

Daí, que a classificação abrangente “ewé ilé” (masculina) também ser complementar as “ewé omi” (feminina); usa-se as “folhas” de Òsòsí para Òsún, de Obálúaiyè para Nàná, e vice-versa.
A feitura de santo é, a nosso ver, a reconstrução do que está explícito nos mitos. Os vegetais, são a matéria básica que propicia esta reconstrução, já que eles são os mediadores entre a essência e o modelo (òrìsá) e o indivíduo que está se construindo socialmente. Eles estabelecem a ligação entre matérias, ou seja, ligam um dos quatro elementos àquele determinado indivíduo, em suma, estabelecem a ligação entre os árá-òrún e os árá-aiyé – os habitantes do “céu” e os habitantes da “terra”.
Reforçando esta hipótese de reprodução do mundo mítico, temos que nos reportar ao aspecto da numerologia, ou seja, a quantidade de oito “folhas” fixas (ewé óró) e oito variáveis (ewé òrìsá) que são utilizadas de acordo com o Santo que está sendo “feito”, totalizando dezesseis.
O equilíbrio, a paridade, conforme apontado por Elbein dos Santos (1977:68) e por Woortmann (1978:48) é constante e de suma importância na ideologia Jêje-Nagô, encontrando-se sua expressão máxima no sistema de adivinhação (Ifá), cujos dezesseis sinais (Odù) correspondem aos quatro pontos cardeais “tais sinais são concebidos como pares de “machos” e “fêmeas”; cada sinal “fêmea” é um equivalente invertido do “macho” do mesmo par. Estes sinais são concebidos como tendo “nascido” aos pares, da mesma forma como nasceram os dezesseis òrìsá originais”.
O equilíbrio, portanto, está na paridade e seus múltiplos (2,4,16,256), conforme explicitado em vários mitos de origem; isto dá ensejo a uma ordenação lógica, estabelecida pela complementaridade de contrários e construída a partir do par de oposição binária (Macho/Fêmea) que se desdobra em vários outros. De acordo com Woortmann (1978:31) a estrutura lógica é composta de quatro elementos “Quatro (...) que se desdobra em 16 (...) temos uma estrutura quádrupla e (...) uma progressão 2-4-16- e finalmente uma postulação de ordem”. Cremos que podemos aplicar aos Jêje-Nagô a colocação: “o princípio de dualidade opera em todos os lugares, por que está na essência de toda organização, natural ou humana” (Balandier, 1976:26).
Da mesma forma, os mitos de criação Ìtán (histórias) dos òrìsá estão sempre explicitando uma complementaridade e/ou dualidade, pois na inexistência de um par criador ou gerador de vida e situações, a dualidade complementar fica assegurada pela figura única que contém os dois princípios – masculino e feminino – e proporciona assim a hierarquia. As figuras do Logunede e Òsùmàrè são representativas desta dualidade em uma só criatura; ou eles são fêmeas ou são machos de acordo com a situação, i.e., por exemplo, Logumede é macho seis meses do ano, quando habita a floresta e é caçador-macho; nos outros seis mora no rio e é considerado fêmea. Òsùmàrè, o arco-íris, possui macho o seu lado direito, sendo fêmea o esquerdo.
Pode-se afirmar que, se a paridade significa equilíbrio-estagnação, a imparidade está diretamente relacionada à desordem-movimento. Em última instância, ela é vista como indicador de mediação, o que pode ser percebido no estabelecimento dos ritos de passagem – momentos de construção e de reafirmação da identidade – “as obrigações” que, após a feitura do Santo, se dão nos períodos de 1,3 e 7 anos. Cabe ressaltar que o primeiro ritual (a feitura) tem na Casa Branca do Engenho Velho e no Àsá do Òpó Àfònjá a duração de 17 dias e no Gantois de 7, sendo obedecida uma numeração ímpar que conota movimento, a mudança de uma etapa para outra.
– Papo de Peru (Ba-17)
Jókojè, Ìjenjóko ou Jokonijé, uma das oito “folhas” fixas – ewé oro – é atribuída a Òsún. A sua presença no Compartimento Água se prende também à forma e coloração características de sua folha, sendo considerada gún – de excitação.


Símbolos máximos da imparidade são os òrìsá Èsù e Òsányìn, o primeiro – “o um multiplicado ao infinito” (Elbein dos Santos, 1977:133) – já foi objeto de estudos exaustivos por vários pesquisadores, entre os quais destacamos Elbein dos Santos (1971 a 1971b) e Trindade (1980 e 1982); Òsányìn, ao contrário, tem sido pouco estudado, principalmente no Brasil. Na África, entretanto, há lhe dedicaram estudos mais aprofundados , assim como em Cuba .
Assim como Èsù Òsányìn não é macho, nem fêmea, e muito menos andrógino, possibilidade esta que daria ensejo à recondução da ordem. Eles não tem uma sexualidade, eles são a sexualidade. As características “trickester” de ambos foram notadas também por Thompson (1975:54) “(...) Èsù enganador dos Yórùbá e, como esta divindade, Òsányìn age como mensageiro entre este mundo e o outro”. Texto recolhido pelo autor mencionado reafirma a sua dualidade:


" Espírito Òsányìn, duende de floresta dos deuses,
Dance sino de poder
Mensageiro de céu
Arcos abaixo para pai
Pênis mau, com lâmina cortar
Vagina má, medicamento-esfregou
Visível e invisível
Corpo de árvore de palma, agüentando desde o princípio mais rapidamente que os
homens de duas pernas espinhos corrida de homem Um-provido de pernas floresta
Má que não conhece nenhum mestre,
Floresta de O que coleciona as dívidas de homens ".

A identificação entre Èsù e Òsányìn também foi notada por Ellis (Maupoil, 1943:6). Reforçando a possibilidade de comparação com Èsù, Òsányìn possui a sua imparidade afirmada por certas características: tem uma só perna, um só olho, um só braço, como insistentemente descrito por nossos informantes e como colocado na literatura, por vários autores, entre eles Cabrera (1952:169); Thompson (1976:CHII/3); Simpson (1980:43). Este último autor transcreve as seguintes louvações para Òsányìn recolhidas em Lalupon, em Ìbàdàn:


Agbénigi, òròmodie abìdi sónsó
(Aquele que sabe o uso das raízes, que Ter um rabo pontudo como um pinto)
Esinsin abedo kínníkínni;
(Aquele que tem o fígado transparente como o da mosca)
Kòògo egbòrò irín
(Aquele que é tão forte quanto uma barra de ferro)
Aképè nigbà òràn kò sunwòn
(Aquele que é invocado quando as coisas vão mal)
Tiótió tin, o gba ásó òkùnrùn
(O esbelto que quando cura esmaga a causa da doença e se move como se fosse cair)
Elésè kan ju elésè méji lo.
(O que tem uma só perna e é mais poderoso que os que tem duas)
Aro abi-okó lièliè
(O fraco que possui um pênis fraco)
Ewé gbogbo kìkí oògùn
(O que torna todas as folhas remédio)
Agbénijí, èsìsì kosùn
(Agbénijí, o deus que usa palha)
Agogo nla se erpe agbára
(O grande sino de ferro que soa poderosamente)
O gbá wón là tán, wón dúpé tènitèni
(A quem as pessoas agradecem sem reservas depois que ele as salva)
Árònì já si kòtò di oògùn máyà
(Árònì que pula no poço com amuletos em seu peito)
Elésè kan ti ó lé elése méji sáré
(O homem de uma perna que incita os de duas pernas para o transe)

No decorrer de nossa pesquisa, a sua relação com a sexualidade foi várias vezes reiterada; sendo-lhe imputado o sexo feminino algumas vezes, outras sendo apresentado como macho. A “folha” que lhe é atribuída por excelência possui a forma alongada (igualada ao membro masculino), no entanto, na parte posterior apresenta uma folíolo que é visto como o órgão sexual feminino. Nossos informantes a denominam patióbá (Xanthosoma atrovirens, Koth et Bouché, Araoeae, Ba-131) e no seio das comunidades é encarada como símbolo da homossexualidade (“pois é uma folha com dois sexos”); o etnômio-patióbá significa: de um dos lados fica o rei, mostrando a dualidade de significados.
A ambiguidades de Òsányìn o torna elemento de mediação, à nível da natureza, da mesma forma que Èsù age no mundo da cultura. Ambos propiciam as ligações entre o òrún e o Aiyé, respeitando obviamente o espaço que a mítica reserva a cada um. Sendo idênticas a sua função e ação – mediação – pode-se inferir que sejam verso e reverso de uma mesma moeda. Informante nosso ao se referir ao Bàbaláwó (advinho, sacerdote de Ifá), disse-nos que este “possuía um Èsù que obedecia suas ordens, fazendo o que ele mandava, e um Òsányìn Àsecrelele, que o informava de tudo”. Òsányìn comunicador é também descrito por Cabrera (1954), e da mesma forma foi por nós observada a presença em uma Casa, autodenominada Jêje, de uma boneca que “falava” com a Mãe de Santo.
A mediação (comunicação) só pode ser estabelecida pelo ambíguo (Noortmann, 1978:79). Assim é Òsányìn quem estabelece a ligação entre os quatro compartimentos-elementos, à nível da natureza, comunicando-os entre si, processo este executado por Èsù no mundo da cultura. Fica estabelecida de maneira distinta a interligação triangular entre Ifá, Èsù e Òsányìn, formando os dois últimos um par complementar que restabelece a ordem binária de opostos, explícita no sistema de adivinhação (Odù), o equilíbrio entre Natureza e Cultura. Convém lembrar que Ifá foi gerado por duas mulheres ou, em outra versão, pelo vento, conforme apontado por Maupoil (1943:38) “Uma mulher lavava suas roupas na beira d’água. Concentrada em seu trabalho, um vento subiu sobre ela, penetrou-a e a fecundou.